Alberto Vidal - In Memorian
Em nosso dia a dia partimos para a vida-mas em determinado dia a partida é definitiva. Hoje cheguei cedo em casa, melhor cheguei em Saquarema, eram 13:10m...Engraçado, hoje eu vim tratar da morte, da morte de meu pai...Após perambular por fórum, bancos e cartórios, enfim, em casa entrei às 17 horas...Mas se da morte eu vim tratar, da vida eu tive saudades, mas não é a saudade do pai morto, é da vida que vivi, da vida que muitos comigo viveram, inclusive meu pai, da vida que um dia, talvez eu não tenha entendido...ah!!!! saudades, saudades do tempo em que meu pai me mandava para casa, deixando para trás o botequim, porque a prostituta ‘Boca Rica’ acabara de chegar; saudades quando ainda não precisava me preocupar com contas de telefone, cartão de crédito, enfim, de CONTAS! Mas como a vida é tão esplendorosa, imaginem, eu garoto, roqueiro, curtindo Raul Seixas, Led Zepellim, Janis Joplin e tantos outros que, à época jovens como eu, faziam a revolução do mundo...A revolução silenciosa que custou a cabeça de muita gente, ufa! Foi-se Jimi Hendrix, a Janis, o Bonahan do Led, foi o Lenon, foram...mas ficou a cara amarrotada do Mike Jagger, ficou a garoa que molhou os cabelos que já não tenho mais, no campo do Botafogo, no Rio de Janeiro, ao som de Raul Seixas, Rita Lee, Erasmo Carlos e outros, ah! Mas porque isso...é que a vida por trás da morte, me apareceu hoje, num dia em que tive tempo para ver, ouvir e sentir um pouco daquilo que já não tenho tempo para perceber...liguei o computador, ví imagens, ví filmes, vi documentários, ‘vi a vida passada pela vida’...e como vai passando, meu DEUS! Não sei se me repreendo ou esqueço meu juízo de valor sobre muitas coisas por que já me debati ferozmente...ví imagens da Sophia, do Bebeto, da Danielle, do Daniel, da Morgana, ví imagens da Clelia...nossa! como me estressei com a Sophia, com o Bebeto, com o Daniel, caramba, um dia eles vão me entender...revendo imagens do Festival de Mont Rey, eu lembrei que o que se faz hoje não é nada diferente do que foi há trinta e sete anos atrás, guardadas as devidas proporções...só quem viu, só quem acompanhou o movimento dos anos 70 poderá avaliar nossa nova juventude...estou em dúvida, mas as imagens de outrora que hoje vejo, não são as de adolescentes como foram os meus, são imagens de adultos fazendo coisas que hoje são feitas pelos adolescentes...acho isso muito bom, pois a maturidade virá muito mais rápido para aqueles que souberem dosar a vida que quiserem viver...os jovens de meu tempo, que fizeram o que fazem os adolescentes de hoje, não viveram muito para contar história, ficou só a saudade dos que tiveram talento...os jovens de hoje têm a birra dos pais globalizados, têm exemplos na internet, tem até avó de 40 anos perdendo o sono na tentativa de manter a prole saudável...Mas, cá pra nós, na minha juventude eu dormia em pé, dentro do ônibus, indo para a faculdade, estudava, ia a barzinhos com a ‘turma’ e, às 2 da madruga voltava para casa...Que resistência, mas é assim, jovem da minha época não sentia o peso da noite mal dormida no trabalho- só dentro do ônibus, e aí, dormia em pé...Mas não perdia a vida, a vida de tanta dinâmica, vivida intensamente sob todos os sentidos. A morte de que vim tratar já é passado, e o hoje já é o presente da Sophia, já casada, do Daniel que vai ser papai aos 20 anos, da Danielle que já é mamãe desde os 19, da Berna que já é BISA! Já diz o Charlie Brow Jr. que ‘ eu não sou o senhor dos tempos...’, já disse o Raul Seixas, que ‘vivi há 10 mil anos atrás’- não importa, o ontem e o hoje se encontram no limiar de nossa existência, fazendo parecer que o que vivi não é tão diferente do que hoje vejo, do que hoje sinto...hoje percebo que meu pai já fôra, mas que a vida continua pulsando nos corações daqueles que continuam na marcha da vida – os nossos filhos. O que importa é termos uma esperança que, amanhã, alguns deles possam rever um pouco do passado, e descobrirem que não foram tão diferentes de nós, de nós, que de tempos em tempos, vamos deixando a vida para trás, como meu pai deixou, mas aí estão Bebeto, Sophia, Danielle, Daniel, Morgana, Marvel, Izabella, Raphaella e Renata – e por que não dizer, a encantadora Ízis, frutos de nosso tempo, que na vida presente perpetuarão a saga de nossas famílias. Se meu pai estivesse entre nós, no mundo dos vivos, amanhã ele completaria 78 anos, mas ele está na companhia da Janis, do Hendrix, do Raul, do John Lenon – e, quem sabe, finalmente ele vai gostar de Rock, e não vai mais me achar diferente por ter gostado tanto do Beatles. Aleluia, a vida continua, Salve Diego! Saquarema, 06/07/2007.



